Você já se perguntou quem faz suas roupas?


foto: James de Mers/Pixabay

Por Ciléia Pontes*

Em várias partes do mundo, este é o mês de debates sobre moda consciente. Isso porque o dia 24 de abril é a data do Fashion Revolution Day, um movimento de conscientização sobre os custos reais da moda para o meio ambiente, para os trabalhadores da indústria têxtil e para toda a sociedade. A data foi criada para lembrar o desabamento do edifício Rana Plaza, em Daca, Bangladesh, e que matou milhares de trabalhadores de uma fábrica de roupas. A tragédia ocorreu no dia 24 de abril de 2013.

E o que temos a ver com isso? Tudo! Infelizmente, o fato de haver uma indústria bilionária, segunda maior poluidora do planeta e responsável por jornadas de trabalho exaustivas e degradantes se deve a nós, consumidores. Coloco-me no meio porque, menos de sete anos atrás, eu era uma das que acreditavam estar levando vantagem por pagar tão pouco em uma peça de roupa. Até descobrir que o custo por trás daquele precinho camarada é incalculável.



Escombros do Rana Plaza, em Daca, Bangladesh. Foto: Divulgação documentário The True Cost

A indústria de roupas baratas, a chamada fast fashion, foi a que mais cresceu nos últimos anos. Além de faturar muito em cima de mão de obra barata (escrava), ela gera resíduos não biodegradáveis (há quem diga que o mundo se tornará uma grande montanha de roupas usadas), sem falar na contaminação do solo e da água com o uso de agrotóxicos nas plantações de algodão.

A minha ficha para essa realidade nada bonita caiu quando a Zara foi flagrada utilizando trabalho escravo em suas peças. E, depois, descobriu-se que várias marcas também não cumpriam exigências mínimas das leis trabalhistas brasileiras. Sem falar nas roupas fabricadas fora do país e importadas por marcas nacionais. Minha reação imediata foi parar de comprar essas marcas, principalmente na Zara, onde nunca mais entrei. Além do flagrante vergonhoso, a marca espanhola descumpriu acordos com a justiça brasileira que deveriam resolver a situação dos trabalhadores.

Fashion Revolution Day e um retrato bem feio da indústria da moda

Quem não conhece, precisa assistir ao documentário The True Cost, lançado em 2015, disponível na Netflix, e que traz informações ainda mais estarrecedoras sobre o real preço daquela blusa bacana que vemos por um valor irrecusável nas vitrines das lojas. Para quem quiser saber mais, a Marina Colerato, do blog Modefica, fez uma resenha esclarecedora (com poucos spoilers) e fiel ao conteúdo do documentário.



Imagens documentário The True Cost/Divulgação

Eu só gostaria de destacar uma das cenas mais tristes: a constatação de que os trabalhadores, na ponta, estão sozinhos nessa luta. Países pobres, ou regiões pobres no caso do Brasil, acabam incentivando a instalação de oficinas/fábricas de roupas para atrair investimentos e fazem vista grossa para as condições degradantes a que se sujeitam as pessoas que precisam de um trabalho. E as grandes marcas, querendo ou não, se beneficiam dessa necessidade. Se o preço da peça fabricada de um lugar aumenta, as marcas se mudam para locais onde o preço é ainda menor. É uma injustiça sem fim. Quem puder, não deixe de ver The True Cost.

Ora, então como faço para me vestir?

Depois que você vê as marcas mais populares (algumas nem tão populares assim) envolvidas com denúncias de trabalho escravo e degradante, pode começar a se questionar: onde comprar roupas sem financiar essa situação horrorosa para milhares de pessoas e para o Planeta?

Eu recomendo uma opção bem fácil. O aplicativo Moda Livre, da Repórter Brasil. Por lá, é possível ver as marcas (com selo verde) que não têm denúncias de trabalho escravo, têm total controle de sua produção e adotam mecanismos para produzir de forma ética.

App com informações sobre a cadeia produtiva de várias marcas de confecção brasileiras.

Outra recomendação é: conscientização. Para quê tanta roupa? A gente não precisa (salvo exceções) de todas as peças que temos em casa. Quando me dei conta disso, reduzi bastante meu consumo de roupas, especialmente porque vi que não precisava de tanto. Praticar o lowsumerism é gratificante, eu recomendo.

É possível também encontrar no mercado marcas comprometidas com a sustentabilidade e a valorização de sua cadeia produtiva. Há, ainda, as opções de comprar em brechós, conhecer o compartilhamento de peças (como no projeto Armário Coletivo, de Florianópolis) e a transformação de peças que já temos no armário. Ideias como a do projeto Desguarda Roupa, da Bruna Castro (São Paulo), Atelie Paula Virgínia (Brasília), e o contato daquela costureira amiga, são ótimas opções para quem quer mudar a cara das próprias roupas sem apelar para o consumo desnecessário. Afinal, ninguém quer ter a consciência de saber que está usando algo que, talvez, custou o sangue de uma pessoa. Parece dramático. Infelizmente, é mesmo!

Para onde vão as roupas que você não usa mais? Podem acabar em uma montanha de lixo não reciclável. Foto divulgação The True Cost.

*Jornalista.
**Texto adaptado e atualizado de post escrito por mim para o blog “O Maravilhoso Mundo dos Ecochatos”.
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